Antonella Braga não é um nome estranho para quem acompanha o TikTok. Com milhões de
seguidores e status de estrela da geração Z, a influenciadora se consolidou no cenário
digital pelo humor irreverente, pela estética jovial e por se tornar referência em trends que
viralizam com facilidade. Recentemente, ela também ganhou espaço na mídia por uma
polêmica com Duda Guerra, ex-nora de Angélica e Luciano Huck, o que ampliou ainda mais
sua visibilidade para além das redes.
Foi nesse contexto de fama, repercussão e capital social que Antonella decidiu lançar sua
própria marca de pirulitos, a Ticky. Em vez de apostar no caminho tradicional das
influenciadoras, como roupas ou maquiagem, ela escolheu um produto inusitado, com forte
apelo estético e direcionado ao público teen. A proposta é ousada: criar um doce
instagramável, diferente do que já existe no mercado. Mas será que a estratégia funcionou?




Os 4 Ps do Marketing como lente de análise
Para entender os acertos e tropeços desse lançamento, podemos revisitar um clássico de
Philip Kotler: os 4 Ps do Marketing. Eles representam pilares básicos para estruturar uma
estratégia de produto:
- Produto – o que se oferece ao consumidor, com seus diferenciais, design e
qualidade. - Preço – quanto o cliente paga, considerando valor percebido, custo e
competitividade. - Praça (distribuição) – onde e como o produto é vendido e entregue ao consumidor.
- Promoção – como a marca comunica sua proposta de valor e gera desejo.
Aplicando essa lente, o case da Antonella revela insights valiosos.
Produto: quando o visual supera a inovação
O Ticky vem embalado em uma proposta estética fancy, instagramável, mas o pirulito em si
é básico demais. Formato redondo, cor azul e sabor único de algodão doce. O contraste
entre embalagem e produto gera uma lacuna de desejo.
Aqui, a marca poderia ter explorado mais: formatos divertidos, múltiplos sabores da moda
como cereja ácida, framboesa ou melancia, e combinações que estimulassem o consumidor
a comprar mais. Afinal, em e-commerce, variedade não é luxo, é estratégia de retenção.
Preço: o dilema do ticket baixo
Um pirulito é, por natureza, um produto de ticket individual muito baixo. Isso cria um desafio
direto: o frete. É inviável vender uma unidade online sem encarecer a experiência. A
solução encontrada foi oferecer packs de 16 unidades, girando em torno de R$ 50.
O problema é que o produto perde acessibilidade e o consumidor se vê diante de uma
compra por volume, mas sem variedade de sabores para justificar a recorrência. O preço,
nesse caso, acaba limitando o desejo inicial criado pelo branding.
Praça: sem ponto de venda físico
Outro entrave está na distribuição. Sem lojas próprias ou parceiros estratégicos de varejo, o
Ticky se restringe ao e-commerce. Para doces, isso é um problema grave: a compra por
impulso é decisiva e o canal digital, com custo de entrega elevado, quebra esse fluxo
natural.
Uma alternativa seria explorar parcerias com cafeterias, lojas de moda jovem, papelarias
cool ou até vending machines em locais de alto fluxo teen. Assim, o produto ganharia
capilaridade, desejo imediato e redução de barreira de entrada.
Promoção: branding forte, execução frágil
Se há um ponto forte no case, é a promoção. A estética criada conversa com a geração Z,
com apelo visual e linguagem jovem. Antonella acerta no branding, mas o discurso não se
sustenta na experiência do produto. No marketing, não basta ser diferente, é preciso ser
relevante.
Lições para o mercado
O case de Antonella Braga mostra que fugir do óbvio é válido, mas exige consistência
estratégica. O branding não pode carregar sozinho a viabilidade de um produto. Os 4 Ps
precisam estar alinhados para que a proposta se sustente:
● Produto que surpreende não só pela embalagem, mas também pela experiência.
● Preço que equilibra percepção de valor e realidade logística.
● Praça diversificada, explorando canais físicos e digitais.
● Promoção que traduz a estética em desejo e recorrência.
Conclusão
O Ticky é um case interessante para profissionais de marketing porque expõe, de forma
clara, os riscos de priorizar a estética sem cuidar dos fundamentos. Antonella ousou ao não
seguir a rota das roupas e maquiagens, mas pecou na execução.
Mais do que criticar, o aprendizado aqui é simples e atemporal: estratégia de produto é mais
do que uma ideia criativa, é a soma de planejamento, logística e experiência de consumo. E
os 4 Ps continuam sendo uma bússola confiável para guiar qualquer lançamento.







